O Lado Feminino da Imigração – Parte I

Os livros que contam a história de São Bento do Sul são realmente fascinantes, revelando aspectos muito interessantes que nos ajudam a entender melhor a sociedade da época de muitos de nossos antepassados. Mas creio que há vários terrenos ainda pouco explorados – muitos deles jamais explorados. Um desses casos é a participação da mulher na colonização em São Bento, fato sobre o qual jamais se escreveu linha alguma. Começo aqui um artigo que não traz tantas coisas inéditas como eu gostaria, mas sim informações de várias fontes, em geral conhecidas, e que foram reunidas de acordo com o significado do tema em questão. Quem sabe esse não seja um começo para estudos mais aprofundados que melhor caracterizem a participação feminina nos primórdios de São Bento.
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Um dos exemplos mais singulares da participação feminina naqueles rudes tempos no início da colonização em São Bento, nos dá o cronista Josef Zipperer, no seu livro “São Bento no Passado”. Zipperer veio com pais e irmãos ao Brasil a bordo do Navio Zanzibar, chegando em setembro daquele ano. Vieram para escapar das condições precárias de vida que tinham na Europa, sem qualquer esperança de mobilidade social. No Brasil, primeiramente se alojaram no rancho dos imigrantes em Joinville, que já estava lotado. A direção da colônia pretendia criar uma nova colônia para abrigar os novos imigrantes. E foi aí que começou a história de São Bento. Mas até a família conseguir se sustentar no Brasil, tiveram que passar por várias dificuldades.
A mãe de Josef Zipperer, Elisabeth Mischeck, precisou se desdobrar para conseguir mantimentos para sustentar a família em tempos tão difíceis. Aos novos imigrantes chegou a informação de que havia um negociante próximo do porto de São Francisco do Sul que fornecia mantimentos aos recém-chegados ao Brasil, inclusive à prazo. Chamava-se Henrique Jordan. Elisabeth Mischeck tratou então de procurar esse negociante e fazer as compras de que a família tanto necessitava. Só que Jordan não se mostrou muito a fim de novamente vender fiado os seus produtos. Isso porque muitas vezes já havia feito esse tipo de concessão aos imigrantes, mas eles não retornaram mais para acertar as contas – mesmo depois que receberam seus primeiros pagamentos.
As palavras de Elisabeth Mischeck, a matriarca da família Zipperer no Brasil, não foram suficientes para convencer Jordan. Então ela voltou para Joinville a fim de buscar três de seus filhos, os mais velhos. A intenção era mostrar ao negociante que a família tinha rapazes de mãos fortes que poderiam trabalhar e conseguir rapidamente saldar a dívida. Com os novos argumentos de Elisabeth Mischeck, e a presença dos irmãos Josef, Anton e Franz Zipperer, Henrique Jordan se compadeceu e forneceu os mantimentos que necessitavam – carne seca, feijão, farinha de mandioca, tachos e panelas. Tudo isso foi levado até local de trabalho dos rapazes, na estrada Dona Francisca. Em 15 dias, eles receberiam o primeiro pagamento, e logo trataram de saldar a dívida com Jordan. Josef Zipperer se mostra bastante agradecido a esse negociante. “Nunca em minha vida esquecerei o seu nome, nem o que faz por nós”. (ZIPPERER 1954). A boa-vontade de Jordan se deveu em muito à insistência de Elisabeth, que sabia da necessidade de conseguir os mantimentos e não mediu esforços para conseguir aquilo que queria e tanto precisava.
Ela era filha de Thomas Mischeck e Barbara Greil. Seu pai, além de carpinteiro, serviu nos Cavaleiros do Dragão. Elisabeth veio ao mundo no ano de 1822, na aldeia de Gunderwitz, na Boêmia. Casou-se em 1847 com Anton Zipperer, de Flecken, e imigrou com a família para o Brasil em 1873. O livro de Josef Blau, “Bayern in Brasilien”, escrito com subsídios passados ao autor por filhos de Josef Zipperer, também exalta atitudes de Elisabeth, chamando-o de charmosa e simpática.
Quando trata da misteriosa doença que teve Josef Zipperer, o livro de Blau afirma que o pai Anton Zipperer seguiu com o filho até uma cidade da Bavária, a fim de conseguir o tratamento adequado com um médico tradicional. Foi feita uma sangria, e recomendando que voltasse em quatro semanas. Passado essa semana, quem levou o filho até o médico, percorrendo longa distância, foi exatamente Elisabeth Mischeck, a popular “Frau Liesl”, tida como mulher bem disposta e corajosa. Consta também que Elisabeth permaneceu inabalável na decisão de emigrar para o Brasil, num momento em que seu marido ainda hesitou. Mas por fim, convenceu-se de que aquilo era o melhor que podiam fazer, e vieram parar em São Bento.
Mãe zelosa, Elisabeth ainda sofreria a perda do filho Franz Zipperer, em fevereiro de 1874, quando ele contava com 18 anos. A família ainda morava no Rancho dos Imigrantes, que ficava aonde hoje está a Praça Getúlio Vargas. Franz contraiu uma forte febre, e “baldados foram os cuidados a ele dispensados, com tanto carinho, pela mãe e por todos nós, com os poucos recursos de que dispúnhamos.” (ZIPPERER, 1954). Foi um baque e tanto para a família que estava no Brasil há apenas alguns meses.
Elisabeth também exerceu a função de “cupido”, juntando um casal que teve grande e tradicional descendência na cidade. Ela chamou seu filho Josef Zipperer, que já contava com 30 anos, e o aconselhou a procurar casamento, aproveitando que a situação da família já havia mais ou menos se estabilizado em São Bento naquele ano de 1877. Josef alertou que não era tão fácil achar uma noiva naquela região. Mas Elisabeth já tinha a sua escolhida. Era uma empregada de Heinrich Reusing, que lhe parecia uma moça muito boa e trabalhadora. Essa moça era Anna Maria Pscheidt, filha de Wenzel Pscheidt, falecido pouco tempo depois de imigrar, e Anna Maria Aschenbrenner, falecida quando a filha era pequena, ainda na Europa. Josef prometeu pensar.
Passado esse tempo de reflexão, convenceu-se dos conselhos da mãe. Pediu a mão de Anna Maria Pscheidt, e com ela se casou em 18.04.1877. A sugestão de Elisabeth parece ter sido muito boa para o casal, pois dele nasceria grande e tradicional prole. Os filhos desse casamento foram Jorge Zipperer, da Móveis Cimo, e que tanto fez por Rio Negrinho, além de Martim Zipperer, também da Móveis Cimo, José Zipperer Filho, que teve o Salão Independência, Carlos Zipperer, também de destacada vida pública em São Bento, Barbara Zipperer, casada com Josef Robl, e ainda uma menina chamada Eva, que faleceu com algumas horas de vida.
Já Elisabeth, viveu 15 anos em São Bento, pois faleceu no dia 30.10.1888, de marasmo senil, quando contava com 66 anos de idade. É possível ver uma gravura sua em companhia do esposo Anton Zipperer no citado livro “São Bento no Passado”.
Publicado em:  on 03/11/2007 at 5:18 PM Comentários (3)

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3 Comentários Leave a comment.

  1. Olá,
    Você por acaso teria mais informações sobre os “Jordan” de Joinville, que se uniram a familia “Douat”no passado?

  2. Qualquer informação por favor envie no e-mail: natijordan@gmail.com

    Obrigada!

  3. Oie, estou fazendo um levantamento na internet sobre os móveis Cimo. O meu interesse é estudar a história dos móveis (estou aprendendo/trabalhando com restauração). Por acaso vc tem algum texto e/ou informações que envolvam os móveis Cimo? Obrigada, Madalena


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