O historiador José Kormann lançou em 2005 um livro chamado “O Tronco Zipperer”. Na verdade é uma ampliação de alguns artigos que ele havia feito para o Jornal Evolução. Alguns deles foram inclusive publicados numa espécie de coletânea. E esses últimos trazem muitas informações contraditórias com as que estão no próprio livro “O Tronco Zipperer”.
Na introdução do livro, o autor afirma que escreveu com base em documentos de Jorge Zipperer, que teriam sido passados a ele por seu irmão Martim Zipperer. Não sei em que ano Martim faleceu (nasceu em 1890, enquanto que Kormann nasceu em 1941, e aparentemente a única relação entre eles é que são de Rio Negrinho). De qualquer forma, admitindo que o historiador ainda jovem tivesse acesso a essas informações, algumas questões não ficam bem esclarecidas.
Isso porque os primeiros capítulos são a simples tradução de um capítulo sobre a Família Zipperer presente no livro “Bayern in Brasilien”, de Josef Blau, sem tradução para o português. É um livro que tenta traçar o destino dos boêmios e bávaros depois que imigraram para o Brasil. O autor também era boêmio, e jamais deve ter tirado os pés da Europa. Os dados foram passados a ele, justamente, por Jorge Zipperer e seu irmão Martim.
Não haveria nada demais nisso, desde que fosse mencionado que se tratava de uma tradução. Mas ao contrário, a obra de Blau não é citada em nenhum momento. Podemos supor então que os capítulos na verdade são os mesmos documentos que Martim passou a Kormann, e que este não sabia da existência da publicação “Bayern in Brasilien”. Hipótese pouco provável, pois qualquer historiador de São Bento pelo menos já ouviu falar no livro de Blau.
O capítulo que antecede as informações que foram traduzidas no livro traz muitas informações históricas que foram esquecidas. Por lá, sabe-se, por exemplo, o nome de muitos ancestrais da família Zipperer. Mesmo não sabendo muita coisa de alemão, como é o meu caso, com algum dicionário é possível traduzir um importante trecho que explica que o imigrante Anton Zipperer, além de filho de Adam e neto de Jakob, como também consta no “O Tronco Zipperer”, era bisneto de Peter, trineto de outro Peter e tetraneto de Georg Zipperer. Informações essas que não ficamos sabendo com o livro de Kormann.
“Antônio Zipperer, o filho da víuva” é o segundo capítulo do livro. Na obra de Blau, esse trecho se chama “Der Auswanderer Anton Zipperer, der Sohn der Witwe”. Ou, “O imigrante Antônio Zipperer, o filho da viúva”. A seguir há a simples tradução do texto, com a omissão de alguns detalhes. Nesse capítulo vi com estranheza a afirmação de que minha trisavó Catharina Zipperer viu o incêncido do Teatro Ringtheather, em Viena, no ano de1883. Isso porque ela estava no Brasil desde 1875. E essa afirmação não está no livro de Blau. Pesquisando, descobri que esse incêndio aconteceu em 1881 (em 8 de dezembro, pra ser mais exato). Na minha inocência, mandei uma carta ao autor, perguntando sobre essas questões. Me respondeu a carta mas nada falou sobre o que eu tinha perguntado. De qualquer forma, parece impossível a história que ele conta.
Capítulo “Der Auswanderer Anton Zipperer, der Sohn der Witwe”, o primeiro a ser traduzido sem ser mencionado
O próximo capítulo se chama “O Filho Doente”, que coincidentemente em alemão é “Der Kranke Sohn”, expressão que faz parte do título do próximo capítulo também do livro de Blau. O tema seguinte do “Tronco Zipperer” aborda a emigração. E já no começo, afirma que o Dia de Santo Antônio é 19 de junho. Afirmação esta que não está no livro de Blau. Depois de algumas palavras, essas sim, ditas pelo próprio autor, retoma-se uma tradução. E depois se fala da “Viagem de Flecken a São Bento do Sul”. Como essa parte não é tradução, repetiram-se algumas informações existentes no capítulo anterior. E houve mesmo algumas informações que se confrontavam, a exemplo da data de imigração, que está diferente nos dois capitulos.
Deixando de lado Blau, nesse capítulo o autor se propõe a reescrever “São Bento no Passado”, de Josef Zipperer (novamente, sem mencioná-lo). Na seqüência, há algumas fotos aparentemente desconexas com a Família Zipperer, à exceção da foto de Martim Zipperer que, de fato, não aparece em outros livros.
Voltando então para Blau, há a tradução de informações sobre os primeiros dias dos imigrantes na nova pátria. O autor teve o trabalho de corrigir a informação que Jorge Zipperer passou a Blau, dizendo que São Bento está a 900 metros acima do nível do mar. No “Tronco Zipperer”, em meio à tradução, lemos que esse nível é na verdade de 840 metros. Não corrigiu, no entanto, a informação de que o imigrante Anton Zipperer faleceu em 1892. Conforme um dos livros de registros de óbitos da Igreja em São Bento do Sul, ficamos sabendo que na verdade ele faleceu em 20.12.1891. Jorge Zipperer e Josef Blau falam que Anton tinha 79 anos. Kormann deu dez anos a mais de vida para ele, ficando, erroneamente, 89 anos.
O capítulo “Der zweit Transport” virou, naturalmente, “O Segundo Transporte”. Eu realmente acho que é importante uma tradução para o livro de Blau. Assim como acho importante que ela seja mencionada. Próximo capítulo de Kormann: “O Zé Tem que Casar”. Na obra de Blau: “Der Sepp muss heiraten”. Suspeita-se então que os documentos que Martim entregou a Kormann foram na verdade alguns exemplares de “Bayern in Brasilien”. Afinal, até a seqüência é a mesma.
Há uma carta realmente muito interessante de Josef Zipperer, escrita quando ele estava com 85 anos, e destinada a parentes na Europa. Por um momento pensei que essa carta poderia ser algum dos documentos doados por Martim Zipperer, mas veio nova decepção quando constatei que ela também está no livro de Blau. Uma carta de Jorge Zipperer, que em “Bayern in Brasilien” já está na seqüência, foi deixada mais para frente no “Tronco Zipperer”. Mas está lá, naturalmente.
Antes dele há o capítulo “De Como Josef Zipperer Comprou a Primeira Vaca”, a versão tupiniquim para “Wie Josef Zipperer die erste Kuh ankaufte”. Depois de mais essa tradução que não menciona nem Jorge Zipperer nem Josef Blau, há o capítulo “Jorge Zipperer”. Ou “Georg Zipperer”, como diz Blau. Lembro que uma simples visita à Secretaria Paroquial em São Bentopoderia dar ao autor o registro de batismo de Jorge Zipperer. Essas informações “oficiais”, no entanto, não foram procuradas em nenhum momento. A tradução desse capítulo, se isso é um mérito, não é literal.
Jorge Zipperer escreveu uma crônica chamada “Die Erste Böhmerwaldler-Hochzeit in São Bento”. Ela está presente no livro de Blau e não resta dúvidas sobre sua autoria, já que abaixo do título há um “Von Georg Zipperer”. Pois esse capítulo também se encontra no “Tronco Zipperer”, como “O Primeiro Casamento Boêmio em São Bento do Sul”. Esse é realmente um tema muito interessante, ainda mais se formos analisar toda a história que há por trás desse casamento, e que foi muito bem contada por Jorge Zipperer. Uma história que já mereceu inclusive encenação teatral. Eu só não sei porque cargas d´água essa história está presente num livro que se propõe a falar da Família Zipperer. Os noivos foram meu trisavô Benedikt Beyerl e sua primeira esposa Anna Maria Neppel. A única referência a alguém da família Zipperer em toda a história é o fato de Theresia Zipperer ter sido uma das “daminhas de honra” e de Josef Zipperer ter assinado como uma das testemunhas. Esse seria um bom mote para um capítulo. Só que Theresia e Josef, que eram irmãos, em nenhum momento são protagonistas da história. Eu não esperava que no livro do Tronco Zipperer eu soubesse tanto sobre meu trisavô, da Família Beyerl. Obviamente, no livro de Blau essa história faz todo o sentido. Afinal, não é um livro sobre a família Zipperer, mas sim sobre os boêmios e bávaros em São Bento, como eram Benedikt Beyerl e sua noiva.
Capítulo sobre o Primeiro Casamento Boêmio em SBS também foi traduzido. Está presente no livro de Blau, que não foi mencionado, e tem pouca coisa a ver com o Tronco Zipperer
Há alguns trechos engraçados nessa tradução. A história está presente também no livro “São Bento no Passado”, embora eu não saiba se em todas as edições. De qualquer forma, na edição mais atual, que é a de 1954, a história está lá. Mas o autor parece não ter percebido, ou então não prestou a atenção devida. Isso porque Jorge Zipperer conta a história mencionando vários apelidos para as pessoas. E no “São Bento no Passado”, ao final da história, há a devida caracterização de cada um dos nomes citados. Assim, o “Häuserwirtsjohann” era Johann Cristoff. Kormann chamou apenas de “Senhor Johann”. Há ainda um “Zimmermanngirgl” traduzido apressadamente como “Jorge Zimmermann”, quando na verdade era Jorge Bayerl. É curioso também o seguinte trecho, que na falta de opção, ficou sem ser traduzido:
“Mas o recém-imigrando Hoarerwagnersepp…”. Esse apelido se referia a Johann Augustin. Creio que na verdade seria “johann” no lugar do “sepp”, havendo portanto erro involuntário de Jorge Zipperer. Mas o autor não poderia perceber isso, obviamente. Entre os outros nomes citados há um “Pöschlfranz”, que nada mais é do que aquilo que parece: Franz Pöschl. Só que no “Tronco Zipperer” também está na “versão original”. E assim com muitos outros nomes que deixaram de ser identificados, ou (pior) foram identificados de maneira errada, ficando ainda mais alheios ao propósito do livro. Lembro ainda que no começo do livro há um “Mailand”, que se fosse traduzido, seria simplesmente Milão.
Não entendi também a foto da “Oxford Kapelle” ao final desse capítulo. Nenhum membro da família Zipperer aparece nela. Também há a foto da “Musikverein Progresso”, sem mencionar qual a relação dela com a família, se de fato existe. O autor faz então verdadeiros malabarismos para fazer essa relação com os Zipperer. Vou até transcrever (com a devida citação).
“Usar nome português (se referindo ao nome “Progresso”) era muito chique. Sabe-se hoje que as primeiras duas palavras portuguesas aprendidas em São Bento do Sul foram PODE SER e quem as aprendeu foi Jorge Zipperer” (Kormann, 2005). E pronto, está justificada a foto.
A seguir começam os capítulos sobre a Móveis Cimo, dos quais me absterei de fazer comentários, pois não é assunto que eu tenha muito conhecimento.Há ali realmente algumas histórias interessantes. Mas como disse, não posso opinar criticamente a respeito.Talvez aí estejam alguns dos documentos que Kormann diz ter recebido de Martim Zipperer. Vou pular pra outro trecho em que eu possa meter o bedelho.
O último capítulo do livro se chama “Zipperer: Quem Somos Nós”, que curiosamente não é tradução. E há alguns erros capitais. Afirma que Anton Zipperer, o imigrante, faleceu em 22.12.1899 (no começo do livro, ele traduziu dizendo que foi em 1892, estão lembrados?). Isso foi, na verdade, em 20.12.1891. E diz que teve os seguintes filhos: Catharina (correto), Josef (confere), Antônio (exato), Thereza (sim), Maria (da onde surgiu essa?), André (certo) e Pedro (quem é esse?).
Mas como o autor mesmo diz, “se formos procurar nos anais e apontamentos, ainda ficamos de certa forma confusos com os membros que compunham a família ZIPPERER. É preciso uma dose de paciência e perseverança para fazermos, hipoteticamente, uma árvore genealógica” (Kormann. 2005). E mais adiante: “Se verificarmos a extensão da família, vamos encontrar alguns Antônios, alguns Jorges, alguns Josés, alguns Andrés, todos parentes, mas nem sempre irmãos, primos ou afins”. Tenho comprovado isso. Realmente há algumas confusões, que inclusive tratarei oportunamente. Mas um pouquinho de dedicação evitava erros como esses citados acima.
Não farei mais julgamentos. Não mencionarei os erros de revisão. É pena que o livro do Blau não tenha sido traduzido oficialmente ainda.